.tudo faz tanto tempo

.maranhão terceiro dia

Dia 19|05|10

As quatro e meia o telefone toca, é o cara da recepção com aquela voz maranhense dizendo “acorde!” pulei da cama e em menos de quinze minutos eu já somava no micro-onibus que levou não mais que dez turistas – todos gringos menos eu – à cidade de Barreirinhas, quatro horas de São Luis. A Pousada fez todos os contatos e acertou tudo, eu pagaria o transfer ate a cidade e de la pagaria o passeio ate as Dunas ou aos Lençóis Maranhenses. Ao todo gastei cento e cinqüenta reais, setenta no transfer, cinqüenta no passeio e o restante em alimentação. Chegando na Ecos Turismo em Barreirinhas já se tem noção do que nos espera, a cidade é muito pequena e é a porta de entrada para quase todos os municípios que compõe os lençóis maranhenses, banhada pelo Rio das Preguiças, tem areia por todos os lados, ruas irregulares e muitas agencias de viagem. Esperei pouco até que a Hilux chegasse para nos levar, durante a espera ajudei na tradução do guia para uns franceses que enfrentariam dois dias de viagem com um guia que não fala inglês muito menos francês, fiquei apreensivo por eles, mas segui meu caminho. Até os lençóis tivemos que enfrentar muito chacoalha-chacoalha, altos e baixos e pontes. Para a atravessar o Rio, vamos de balsa, mas a viagem dura pouco. Na Balsa uma senhora nos pergunta de onde somos e ela adverte que os lençóis estão baixos, “pouca chuva” disse ela. A primeira grande aventura para mim foi quando pela primeira vez vi um carro nadando! Rs … A hilux entrou numa imensa piscina d`água formada pela chuva,  e atravessou aquilo em menos de 4 minutos, fiquei impressionado e ao mesmo tempo amedrontado, passamos por poças menores mais a frente, nosso guia o Erick disse que já havia ficado preso ali, vez ou outra, e que sempre que acontece isso ou conta-se com a ajuda dos outros turistas ou o guincho deve vir buscar. Carro pequeno naquela areia fofa não anda. Nem tente.

Quarenta minutos de areia, curvas malucas e poças enormes chegamos aos lençóis, a primeira vista já impressiona e já vale qualquer esforço, como disse o  Beto – amigo de aventura nesse dia – essa paisagem “vale por uma oração”. Começamos a andar na areia e o quanto mais se pisa menos sai do lugar. A areia é muito fina e as dunas muito altas, quando conseguimos chegar ao cume da primeira duna, o sol já castigava e o suor já descia pelas temporas. De cima um sem fim de areia e mais areia, de todos os lados, é um deserto, desses de filme, uma locação a céu aberto, um paraíso na terra. Entre as dunas algumas piscinas naturais, algumas delas tem aqüíferos o que as mantem “vivas” o ano todo, outras dependem exclusivamente da chuva. Segundo nosso guia, aqui tem apenas duas estações, o verão e o inverno, cada uma com duração de seis meses, nos primeiros seis há chuva quase todos os dias e nos últimos seis meses do ano o sol não para de brilhar. Eu sou um cara que gosta de água mas nem tanto, sabe como é! Coloquei os pés na água esperando que estivessem muito geladas, talvez por traumas anteriores! Mas o que encontrei foi sem duvida a melhor temperatura de água que já encontrei em vinte e oito anos de vida. Não é fria, não é quente, não é morna. Ao sair da água não se bate o queixo de frio, mas também não é aquele corpo quente das águas termais de Goiás por exemplo, é algo único, talvez indescritível.

Ficamos em basicamente três lagoas, a primeira, em tom esverdeado onde gravei o som da água e a paz. Éramos somente quatro pessoas naquela lagoa, a sensação é de totalidade, você não está sozinho, está como todo mundo, num silencio, numa paz. Dali conhecemos outras lagoas menores e chegamos a famosa Lagoa Azul, realmente com tom azulado a lagoa é rasa em toda sua extensão, é comum ver crianças brincando bem no meio dela sem preocupações. Animais aqui são raros e vistos mais a noite, como cobras, escorpiões e lagartos. No lago vê-se um tanto bom de vitória-régia e esta é uma lagoa com mais movimento, umas vinte pessoas, moradores de São Luis passando um tempo.  Andando um pouco mais chegamos a lagoa mais fascinante para mim a Lagoa dos Peixes, ao entrar na lagoa varias Piabas te dão as boas vindas, cheguei a ficar com medo, porque os peixes nadam muito próximos de você, estão querendo comida e por isso ficam muito próximos, é possível passar a mão no cardume. Quando joguei pedacinhos de bolacha na água, um sem numero de peixes quase me empurrou para fora da água. Muito bonito e fascinante, ficamos ali em banho-maria por uma meia hora, tomei meu refrigerante Jesus já quente! E começamos a voltar tudo aquilo. No Deserto não há atalhos, descobri isso bem cedo!

A despedida de um lugar como esse é sempre dolorida, da vontade levar um pouco com você, mas eu trouxe, na memória, nas palavras e nas historias. O lugar é limpo e desabitado. Falta um cuidado ainda maior por parte da Prefeitura e do IBAMA que não se manifestam, no mais, a vida se segue e muita gente passa por aqui.  Voltei para São Luis não antes sem tomar um suco de Bucuri no Descanso do Rio, lanchonete Beira Mar em Barreirinhas e ouvir as historias das viagens do Beto. Uma passada rápida na Pousada Da Areia filiada Lonely Planet e embarco para São Luis. Chegando aqui, tomei banho e já ouvi um tambor, era a velha guarda aqui na esquina tocando tambor e o samba comendo alegre! Alguns hippies, muita cerveja e papo bom. Meu olho denotava meu cansaço, fui pro quarto descansar e sonhar com os lençóis.


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