. o padeiro
Se fosse me dado o direito de rever meu dia, refaze-lo em detalhes, nao o faria ao menos não hoje. Pois que chego ao final dele me perguntando sobre “desculpas”.
Quando aplicar essa palavra? Em que contexto se aplica melhor?
Pra começo de conversa penso na negativa da pergunta, ou seja, tenho vontade de criar suposições de quando “nao” usar a palavra em questão. Quando não me desculpar com alguem? Talvez quando eu fizer algo de propósito! Sim, me parece uma boa não aplicação da palavra, porque quando se faz algo intencionado nao tem o que pedir descupas, nao ha o que rever, houve a intenção, era para ser assim, portanto se no caminho passou por cima de ti, foi uma fatalidade da minha ação pensada, nao que desejasse atropelá-la mas como era intenção chegar ao objetivo final e cheguei, ter passado sobre você foi um acontecimento de percurso, portanto, nao … não há o que se desculpar. “Desculpa” também nao é uma palavra isolada, mas tambem uma ação, ou um conjunto de ações, atitudes que configuram um momento no tempo, gestos, feiçoes, tom de falar, rubor ou falta dele e por aí vai, embora seja totalmente “desculpável” um pisão no seu pé - que eu juro que nao tinha pensado em dar - implica em um constrangemento imediato que está ligado diretamente à minha displicencia e total falta de espacialidade e de foco por ter pisado em você, nesse caso ainda sim seria um momento para me desculpar?
Coloquemos na mesa: sou assim, sou displicente e pouco cuidadoso e sabendo disso piso no teu pé; parece-me obvio que um dia aconteceria, ser com você foi um mero acaso de coincidencias. Bem, mas ainda assim peço desculpas e sigo em frente, porque aí também mora um outro questionamento, se eu sigo em frente mesmo dizendo “me desculpe” a dor no seu pé vai continuar e será a mesma com ou sem a minha palavrinha mágica, portanto a palavra nao é nem de longe mágica, nem de longe um balsamo ou algo que tenha a mesma propriedade da morfina, não! No máximo te coloca entre os não estupidos, por mais que você tenha sido, por ter pedido desculpas. A dor está lá, latejando o dedo medio, mas a dignidade de quem pisou por incrivel que pareça está intacta, é quando saindo dalí encontro uma amiga me diz “preciso pedir desculpas à fulana” precisa mesmo? passado algum tempo ainda faz-se necessário pedir desculpas? Desculpa sempre teve para mim um carater urgente, algo que só pode ser dito agora e pelo agora, não pelo passado quiçá do futuro, ah! como é dificil saber essas coisas, nao sei mesmo se devo pedir desculpas à “tia” da segunda serie primaria quando eu passava raiva nela! Talvez não, porque afinal de contas é da idade e a gente entende quando se é criança, mas se for assim, então os adolescentes estão livres de quaisquer possiveis desculpas, porque afinal de contas é um porre estar nessa faixa etária e você leitor provavelmente já passou por ela, se formos aceitar as “nao desculpas” por faixa etária temos um grande problema nas mãos.
Assim como os velhos que por serem a velhos podem ser arrogantes, grossos, nojentos porque nao e ainda sim não pedirem desculpas, fico pensando num mundo sem desculpas, os diplomatas perderiam emprego e o cargo de ombusman seria extinto, já o de político se mantém firme, porque eles quase nunca pedem desculpas, por entrar ainda naquela categoria dita mais acima, aquela de quando o fato foi intencional. Talvez por isso cada vez menos ouço desculpas e temo estar também diminuindo as minhas, sem desculpas ou com elas o preço do paozinho tá subindo e a isso o padeiro nem sequer move as sobrancelhas.
