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Deck A
Graças à farmacologia estou começando a querer dormir. Mas nao é sobre isso que quero escrever; eu estava agora a pouco tentando encontrar alguma musica nesse notebook e para minha surpresa nao achei nenhuma que valesse a pena ser ouvida, aqui só tem arquivos relacionados ao trabalho. Minha procura era com o unico intuito de encontrar uma trilha sonora que embalasse meu texto, mas hoje ele vem no silêncio. Como agora a pouco. Desci do palco no silêncio. Pedi que fosse assim, hoje sem aplausos ao final do set. Hoje não, hoje não pode, hoje não posso, hoje não dá. Por que a garganta está seca demais, os olhos marejados demais e não poderia receber à altura as palmas que por ventura viessem a aparecer na sala escura. Por isso pedi que hoje fosse diferente,até mesmo por não se tratar de um dia comum. Tive hoje uma sucessão de silêncios, lutei com eles as vinte e quatro horas que os precedeu, com artificios, artimanhas, sons malucos vindos de qualquer lugar. Tudo que calasse o silêncio brutal que caminhava para dentro.
Deck B
Só hoje sem aplausos. Tive na infancia um toca-discos, desses que hoje valeriam uma fortuna no e-bay. Não sei o que fiz ou quais fatores fizeram minha mãe jogar longe meu toca-discos na rua, quebrando na minha frente, minha caixinha de musica. Gostaria muito de rodar a camera e num plano medio caminhar para o close do meu rosto enquanto entendia que eu teria a partir dalí dias e noites de silêncio.
Deck C
Quando eu ainda estava em cartaz com Manual de Mim, meu espetaculo solo, tinha costume de - ao fim - sair sempre no meio dos aplausos da plateia. Antes de entrar em cena, durante uma hora eu pedia que permanecesse em silencio, os sons do espaco invadiam o teatro e eu podia me preparar para o barulho que continuava até eu sair de cena, era um conforto chegar ao camarim ainda ouvindo as ultimas palmas da plateia, funcionava como um alento, um colo necessário apos cinquenta minutos de intenso desgaste e entrega. Chegar ao camarim no silêncio era uma das coisas mais doídas para mim durante os cinco anos que me apresentei com este solo. A peça acabava com uma música, com uma trilha que embalava a historia, o ator, o personagem e o imaginário de quem assistia. .
Deck D
E quem é que sabe se despedir? Nunca conheci um. O problema, pensando alto agora, não é se despedir, mas entender que este ritual de dizer adeus, tchau, até mais, implica na interrupcão de um encontro. Quase como se assinassemos um termo em que acordassemos nao nos ver, nao iremos mais nos encontrar nos proximos dias, horas, lugares. Nao mais. Até o proximo encontro. Mas até o proximo encontro muita coisa acontece e ao final de tudo mais uma despedida e assim se segue. Hoje foi um dia de despedidas e temo estar me acostumando com elas. Uma noite intragável, embora tenha dado play na minha ultima musica dizendo “Just Dance” porque é isso mesmo que eu sempre quis na pista, divertir o outro, fazer com que ele dançasse. Hoje quando pedi que houvesse 1 segundo de silencio, era para entender que na proxima semana eu não estarei lá e justamente hoje e tão só hoje, sem aplausos.
